Gabo,

Literatura-Gabriel-Garcia-MarquezO ano era 2004. Definitivamente, um ano em que, por diversas razões, os livros foram muito mais meus amigos do que muita gente. E você estava lá me fazendo companhia. Lembro como se fosse hoje o dia em que comecei a ler “O amor nos tempos do cólera”. Em uma única tarde, li tantas páginas, quase a metade. Porque seus livros são assim: a gente não consegue largar. A gente se envolve, se apega, se emociona. Logo depois, “Cem anos de solidão”. Mais uma vez, um grande livro, uma grande história. Personagens memoráveis. Até hoje, certos acontecimentos me lembram Úrsula. Suas histórias e seus personagens são assim: acompanham a gente o resto da vida.

Isso para falar dos livros mais conhecidos…

Obrigada por tantas histórias. Celebremos a sua vida, que foi incrível.

Gabriel García Márquez – 1927 – 2014

Espinhos e Alfinetes, João Anzanello Carrascoza

espinhos e alfinetes joão anzanello carrascozaNeste mundo, a única certeza que possuímos é a de que não temos controle sobre a vida. Até nutrimos, como que para sobreviver, a ilusão de que temos – vá lá – algum poder. Porém, basta alguma força do destino, algum cruzamento de planetas em seu mapa astral, alguma mão divina para destruir tudo aquilo que nos era certo. De certo modo, os contos reunidos em “Espinhos e Alfinetes”, do paulista João Anzanello Carrascoza são exatamente sobre isso: sobre a fragilidade de ser e de existir.

O primeiro conto, “Espinho”, adianta ao leitor tudo o que será encontrado ao longo do livro. A história é simples: o narrador lembra a admiração que sentia pelo irmão mais novo. Juntos, brincavam as brincadeiras mais simples, tal como pode ser a vida longe dos grandes centros urbanos. O conto é curto, mal tem 10 páginas, mas é de uma grandiosidade sem tamanho. Desafio qualquer um a terminar a leitura dessas páginas (ou de qualquer outro conto deste livro) sem um nó na garganta, sem uma lágrima caindo sem querer dos olhos.

Carrascoza emociona na mistura de seu olhar de mundo sensível com sua prosa delicada. O escritor recorta pequenas situações do dia a dia (como o primeiro dia de um pai e um filho sem a esposa/mãe, descrito no conto “Alfinete”) para lembrar do que é feita a vida: de perdas, despedidas, lembranças. E é justamente essa mistura que dá força a cada um dos contos de “Espinhos e Alfinetes”. Parece bastante óbvio que o autor está muito menos preocupado com a linguagem em si do que com o que pode com ela evocar.

De modo geral, os personagens de “Espinhos e Alfinetes” são pessoas com vidas modestas, sem nada de muito diferente. Enfim, gente como a gente, muitas vezes, ignorada por quem tem o poder de transformar anônimos em seres especiais – ainda que de modo ficcional. Situações banais, no sentido de que todo dia acontecem com alguém neste mundo, são vistas sob uma ótica mais especial, aquela que transforma acontecimentos ordinários em especiais e repletos de significados para quem os vive.

Vale destacar, também, como a maioria dos personagens ou narradores do livro são crianças. Talvez porque elas sejam capazes de olhar para a vida com olhos mais sensíveis.

Todos os contos do livro são, de fato, muito bons. Destaque para o de abertura, “Espinhos”, “Mar” (esse sim tenta, com sucesso, um experimentalismo com a linguagem), “Só uma corrida” (uma linda história de taxista) e “Poente”, sobre o final de relacionamento de um casal e as diferenças de percepção de homens e mulheres. É deste conto o trecho abaixo:

“Sentaram-se no sofá, lado a lado, como tantas vezes haviam feito para falar da vida – os assuntos fixos e os fugazes – , ou assistir à TV, ou brincar com o menino,

sem perceber que daquela maneira, distraídos para o mundo, estavam decidindo seus destinos”.

 

 

Desafio do Livrada!

Bem, a rigor, o livro não se encaixa em nenhuma categoria. Porém, como li por “obrigação” acadêmica e como nenhum amigo me enche o saco para ler livro algum, este vai para:

14- Um livro que algum amigo te enche o saco pra ler

___________

Espinhos e Alfinetes

João Anzanello Carrascoza

Editora Record

Sentimental, Eucanaã Ferraz

sentimental eucanaã ferraz

“Sentimental”, do poeta carioca Eucanaã Ferraz, diz a que veio já na primeira página, com o poema “O Coração”. São apenas dois versos, porém, com a força que muitos livros jamais terão. Diz assim:

Quase só  músculo a carne dura.

É preciso morder com força.

Ao longo da leitura, o leitor não consegue esquecer “O Coração”, e não é por causa de sua brevidade. A ideia nele representada pelos termos “carne dura” e “morder com força” serão constantes em todos os poemas, os quais tratam, claro, do que chamo aqui de as coisas do coração, este músculo muitas vezes de carne dura: amor, solidão, (des)ilusão. São, obviamente, temas universais tratados com a inteligência e sofisticação que poucos – e geniais – poetas apresentaram ao mundo.

Muitos dos poemas de “Sentimental” levaram anos, até mesmo décadas, para serem finalizados. Isso porque Eucanaã Ferraz procurava costurar cada um com a palavra mais correta possível (foi o que ele mesmo contou no Paiol Literário de julho do ano passado, aqui em Curitiba *). Todo cuidado é justificável quando analisamos a musicalidade e a força de cada palavra e de cada verso na poesia de Eucanaã Ferraz. Um exemplo está em “Sob a luz feroz do teu rosto”, a propósito, um dos meus favoritos.

Sob a luz feroz do teu rosto

Amar um leão usa-se pouco,
porque não pode afagá-lo
o nosso desejo de afagá-lo,

como tantas vezes cão ou gato
aceitam-nos a mão a deslizar
sobre seu pêlo;

amar um leão não se devia,
agora que já não somos divinos,
quando a flauta que tudo

encantaria, gentes animais
pedras, nós a quebramos contra
a ventania; amar

um leão é só distância: tê-lo ao lado,
não poder beijá-lo, o deserto
que habita em torno dele;

era mais certo amar um barco,
era mais fácil amar um cavalo;
amar um leão é não poder amá-lo;

e nada que façamos adoça
o que nele nos ameaça se
amar um leão nos acontece:

à visão de nosso coração
ofertado, tudo nele se eriça,
seu desprezo cresce;

amar um leão, se nos matasse;
se nos matasse o leão que amamos
seria a dor maior, mais que esperada:

presas patas fúria cravadas em nossa carne;
mas o leão, que amamos,
não nos mata.

E é com a união entre técnica e conteúdo que Eucanaã Ferraz consegue criar imagens fortes, sejam elas das situações mais banais ou de eventos tristes e em poucos versos ou algumas páginas. É o que acontece em “Victor Talking Machine”:

A flor aberta do gramofone por onde amídala

a música passava lisa; havia também o cão

estático diante do aparelho; além de ouvir

a música,

ele podia farejá-la? Talvez até pudesse vê-la

(…)

E é assim, com beleza, ironia e melancolia que o poeta constrói o seu “Sentimental” e desfaz o equívoco de quem acreditava que encontraria uma série de poemas cheios de sentimentalismo barato. Nada na poesia de Eucanaã Ferraz conforta. Ao contrário, ela perturba, incomoda e fere tanto quanto o leão amado do poema acima. Acredito que, de fato, provocar o leitor tenha sido a intenção do poeta (e, mais uma vez, baseio-me no bate-papo do Paiol Literário).

Há muita coisa sobre as quais eu gostaria de escrever aqui sobre “Sentimental”, o mais recente vencedor do Prêmio Portugal Telecom. Porém, prefiro deixar que cada um tire suas próprias conclusões com o poema mais lindo de “Sentimental”.

El laberinto de la soledad

Yuri viu que a Terra é azul e disse a Terra é azul.

Depois disso, ao ver que a folha era verde disse

a folha é verde, via que a água era transparente

e dizia a água é transparente via a chuva que caía

e dizia a chuva está caindo via que a noite surgia

e dizia lá vem a noite, por isso uns amigos diziam

que Yuri era só obviedades enquanto outros

atestavam que tolos se limitavam a tautologias

e inimigos juravam que Yuri era um idiota

que se comovia mais que o esperado; chorava

nos museus, teatro, diante da televisão, alguém

varrendo a manhã, cafés vazios no fim da noite,

secos de carvão; a neve caindo, dizia é branca

a neve e chorava; se estava triste, se alegre,

essa mágoa; mas ria se via um besouro dizia

um besouro, e ria; vizinhos e cunhados decretaram:

o homem estava doido; mas sua mulher assegurava

que ele apenas voltara sentimental. O astronauta

lacrimoso sentia o peito tangido de amor total

ao ver as filhas brincando de passar anel

e de melancolia ao deparar com antigas fotos

de Klushino, não aquela dos livros, estufada

de pensões e medalhas, mas sua aldeia menina,

dos carpinteiros, da lua e lobisomens,

do seu tio Pavel, de sua mãe, do trem,

de seus primos, coisas assim, luvas velhas,

furadas, que servem apenas para fazer chorar.

Era constrangedor o modo como os olhos

de Yuri pareciam transpassar as paredes

nas reuniões de trabalho, nas solenidades,

nas dicsussões de metas para o próximo ano

e no instante seguinte podiam se encher de água

e os dentes ficavam quase azuis de um sorriso

inexplicável: um velho general, ironicamente

ou não, afirmara em relatório oficial que Yuri

Gagarin vinha sofrendo de uma ternura

devastadora; sabe-se lá o que isso significava,

mas parecia que era exatamente isso, porque

o herói não voltou místico ou religioso, ficou

doce, e podia dizer eu amo você com a facilidade

de um pequeno-burguês, conforme sentença

do Partido a portas fechadas. Certo dia, contam

caiu aos pés de Octavio Paz; descuidado, tropeçara

de paixão pelas telas cubistas degeneradas de Picasso.

Médicos recomendaram vodca, férias, Marx,

barbitúricos; o pobre-diabo fez de tudo

para ser igual a todo mundo; mas,

quando parecia apenas banal, logo dizia coisas

como a leveza é leve. Desde o início,

quiseram calá-lo; uma pena; Yuri voltou vivo

e não nos contou como é a morte.

***

* Você pode ler a cobertura do Paiol Literário, evento que traz a Curitiba grandes escritores, com o Eucanaã Ferraz aqui.

Desafio do Livrada:

7 – Um livro de poesia

_____________________

Sentimental

Eucanaã Ferraz

Companhia das Letras

 

 

O Retrato, Nicolai Gogol

o retrato nicolai gogol“O Retrato” é uma novela de pouco mais de 50 páginas do russo Nicolai Gogol. A obra pode ser pequena, mas carrega em si grande significado e importante reflexão sobre a arte e o artista. O livro narra a história do jovem pintor Tchartkov. Embora promissor, o artista vivia à margem da sociedade: seu talento não era reconhecido, ele não possuía dinheiro, estava para ser despejado de seu modesto apartamento. Porém, um sonho misterioso e um acontecimento inesperado trazem novas oportunidades de fama e reconhecimento. Porém, para tal, o pintor precisar mudar seu estilo, rendendo-se ao que estava em voga no mercado.

Parece óbvio o dilema proposto por Gogol (e é nele que me concentrarei neste post): Tchartkov decide viver por e de sua arte, ainda que permaneça pobre e sem reconhecimento, ou entrega-se ao mercado e obtém fama e dinheiro? O caminho escolhido pelo pintor aparece já nas primeiras páginas de “O Retato”. Ele abandona o seu projeto estético, ou seja, sua concepção artística, para atender as demandas mercadológicas. E, de fato, ele conquista o reconhecimento e o respeito do “grande público”.

Porém, a quê preço? Gogol deixa claro, ao longo de sua novela, que à medida que as economias de Tcharktkov crescem, seu espírito empobrece. O pintor passa a criticar os artistas que permaneceram fiéis à arte. Ele compra as obras desses pintores e as destrói, como quem deseja acabar com qualquer possibilidade de pensar sobre o artista que poderia ter sido. Como quem sabe que se tornou um repetidor de técnicas, apenas isso. O pintor torna-se uma alma corrompida pelo dinheiro e isso lhe traz um grande vazio existencial.

O livro de Gogol foi escrito no século XIX. No entanto, traz uma discussão ainda hoje muito importante. Ou melhor: sobretudo hoje, muito importante. Afinal, o que é arte? A grande maioria das obras serve apenas para servir à chamada indústria cultural. Temos no campo da cultura uma série de produções padronizadas. Não precisamos ir longe para entender este conceito. Basta pensarmos, por exemplo, em todas as cantoras pop, todas elas, com um estilo musical tão parecido a ponto de não reconhecermos que música pertence a qual cantora. Ou, para nos restringirmos ao universo da literatura – objeto deste blog –, podemos pensar em todas as variações e continuações de livros como “Cinquenta tons de cinza”. O que temos aqui não é arte. É apenas uma fórmula que deu certo, que caiu no gosto do público (com o suporte, claro, da mídia) e que daqui a algum tempo será substituída por outra. Essas produções e reproduções são um produto de consumo, que enriquece a indústria cultural e a quem a ela empresta o seu nome – os Tcharktov de hoje.

É exatamente essa a experiência vivida pelo personagem central de “O Retrato”. Gogol nos lembra, então, o que é a arte: uma criação dotada de projeto estético, inspirada por grandes mestres. E que o verdadeiro artista é aquele que carrega em si suas convicções artísticas, bebe das melhores fontes, aprimora-se até que chega um momento em que ele próprio conquista originalidade para criar a sua arte.

O resultado para nós: a arte traz dúvidas, reflexões, incômodos. É o exercício que tento fazer aqui quase toda semana (e diariamente em minhas leituras). Leio para encontrar sentido para o mundo. Para compartilhar da experiência dos escritores. Para conhecer a mim mesma e ao mundo.

**

O blog, humilde, já está no ar há pouco mais de um ano! Obrigada aos leitores pelas visitas, comentários, sugestões, informações. Continuem por aqui, sejam bem-vindos sempre.

**

Desafio do Livrada:

9- Um livro escrito originalmente em um alfabeto diferente do seu

______

O Retrato

Nicolai Gogol

L&PM Pocket

Tradução: Roberto Gomes

Azul é a cor mais quente, Julie Maroh

Azul-é-a-cor-mais-quente-julie maroh“Azul é a cor mais quente”, da francesa Julie Maroh, é um livro necessário. A graphic novel, que originou o filme “La vie d’Adèle”, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2013, conta a história de Clémentine, adolescente de 15 anos que descobre o amor quando conhece Emma, uma estudante de artes.

É um livro de amor, sobre amor. O bonito de “Azul é a cor mais quente” é como a relação de Clémentine e Emma é mostrada: como todo e qualquer relacionamento, com seus altos e baixos, com seus conflitos e cheios de momentos felizes. Com sensibilidade, Maroh retrata muito bem os anseios das duas personagens e como cada uma aprende o que é amar. Clémentine aprende que amar é ter paciência, é saber esperar o tempo do outro. Emma, por sua vez, aprende que amar é entregar-se ao outro para encontrar a si próprio.

A homossexualidade não é o ponto central do livro, mas, claro, a questão não pode ser ignorada. Quando conhece Clémentine, Emma já tem sua sexualidade bem definida e luta pelos direitos gays. A jovem, por sua vez, está se descobrindo e enfrenta a não aceitação de seus pais, o preconceito na escola, nas ruas. Porém, este é apenas um dos obstáculos no relacionamento delas. Todos os outros (dúvidas, ciúmes, imaturidade, etc.) são comuns a qualquer casal.

É interessante observar como Clémentine e Emma passam por grandes processos de transformações e amadurecimento ao longo da história contada por Julie Maroh. Conforme o tempo passa, ambas passam a entender e a aceitar o que desejam para si próprias e aprendem a acrescentar suas vontades no relacionamento – processo este, como sabemos, nada fácil, e, mais uma vez, Maroh acerta o ponto e explora muito bem o crescimento pessoal das duas jovens.

Em tempos em que os homossexuais, finalmente e felizmente, conquistam seus direitos, “Azul é a cor mais quente” mostra que amor é, nunca frase brega, o que há de mais belo e precioso, sempre. E, para todos nós, que o amor é cheio de conflitos, mas, também, repleto de momentos de felicidade. E que sempre vale a pena dividir sua existência com alguém.

 

Desafio do Livrada: 10 – uma graphic novel

_________

Azul é a cor mais quente

Julie Maroh

Martins Fontes – selo Martins

A Mulher Foge, David Grossman

a mulher foge david grossmanA história de Orah, Avram e Ilan, os protagonistas de “A Mulher Foge”, do israelense David Grossman, estarão conectadas para sempre. Isso fica claro nas primeiras páginas do livro. O leitor conhece os três personagens quando ainda são bastante jovens e estão em quarentena em um hospital, em meio a uma guerra. A experiência, marcante, os unirá em um triângulo amoroso, como não é difícil de deduzir. E, por quase 600 páginas, Grossman explora os conflitos deste relacionamento tão peculiar.

Também nas primeiras páginas o romance ganha um novo ponto focal: Orah. O tempo passa e o leitor descobre que aquela adolescente atrevida e cheia de sonhos tornou-se uma mulher de meia-idade recém-divorciada (de Ilan) e com dois filhos, Adam e Ofer. Quando este último parte como voluntário para a guerra, Orah foge com medo de receber a notícia da morte do filho. Ela arruma uma mochila e parte sem rumo por Israel – a pé. Porém, ela não vai sozinha. Ela procura Avram e, após mais de duas décadas sem nenhum contato entre ambos, o obriga a partir com ela.

E é a partir deste ponto que “A Mulher Foge” torna-se um livro interessante. Primeiro, por sua estrutura. O leitor descobre o que aconteceu entre e com Orah, Avram e Ilan na medida em que ela conta sua história ao companheiro de viagem. No entanto, a narrativa não é linear. Orah conta sua vida a partir de acontecimentos que ela julga importante que Avram conheça. Sua intenção é fazer com que Avram conheça sua história e seus filhos, sobretudo Ofer. O tempo distante, no entanto, faz com que este processo seja doloroso, nada natural. A cada revelação, Orah e Avram aproximam-se, compreendem-se, perdoam-se. E, para o leitor, os personagens tornam-se mais complexos, mais humanos, e suas histórias, mais inteligíveis. O leitor também aprende a compreender e a perdoar cada um deles.

É interessante observar a importância que a fuga e o ato de remontar e revisitar a vida e seus acontecimentos possuem neste romance. Não é apenas o medo da morte do filho que incentiva a fuga de Orah. Ela encontra-se destruída, não consegue encontrar em si, naquele momento, as respostas para dúvidas que vêm de anos atrás. E quando conta sua história a Avram, ela encontra todas  possíveis (sempre possíveis) respostas procuradas. O mesmo acontece com Avram. Ele também é um homem destruído. A guerra (de Yom Kippur) deixou cicatrizes que vão muito além das físicas. À medida que parte com Orah e ouve sua história – e revive a dele também –, Avram é tomado por um empoderamento de si próprio. Ou seja, ele sai de uma posição subjetiva, na qual permaneceu por anos a fio, e retoma o controle de sua vida. E, embora ambos estejam em busca de si próprios, jamais teriam se encontrado sozinhos. Um fortalece o outro. O modo como Grossman constrói toda essa trajetória é primoroso. São várias histórias, como várias linhas emaranhadas e, conforme o leitor avança em sua leitura, desembaraça todos os nós da vida dos três protagonistas.

Não consigo parar de pensar que, de algum modo, “A Mulher Foge”, e, mais precisamente, a importância do isolamento e do ato de narrar a vida, é uma homenagem à literatura (não falei antes, mas Orah, além de contar, escreve sua própria história, ou fatos dela, em um caderninho que encontra em sua viagem). Um escritor – todo artista, na verdade – escreve porque há algo dentro de si que não cabe mais, há algo que lhe incomoda e que precisa ser colocado em palavras. Para isso, o exercício é olhar de fora para dentro de si e verbalizar. É este movimento realizado por Orah. E pelo próprio autor, que perdeu um filho na guerra enquanto escrevia este livro.

A guerra aqui funciona não apenas como contexto histórico, mas como uma certeza para quem vive em Israel, seja o cidadão judeu ou árabe. Os personagens convivem com a guerra e ela é tão presente como a certeza de que é preciso ir à escola, por exemplo. Os conflitos políticos estão em todo livro, inseridos no cotidiano de cada figura do romance: a raiva que Ilan sente de seu pai, um militar; a tensão entre Orah e seu motorista, um árabe; o que a guerra causou à vida de Avram; o que Adam e Ofer sentem ao ir para o campo de batalha; a convivência com atentados terroristas. Grossman retrata os conflitos entre judeus e palestinos de forma bastante inteligente, sem dicotomizar a questão. O que ele faz, sem evangelizar o leitor, é mostrar como este dilema é antigo e complexo, e, sobretudo, como ele oprime todo e qualquer cidadão que dele faça parte.

“A Mulher Foge” é, em sua essência, sobre a necessidade de ser forte, de superar situações limites e de ter a coragem de dar mais um passo nas longas caminhadas. É em meio a esse turbilhão de acontecimentos que Orah entende que precisa encontrar sua individualidade mesmo inserida em um contexto repleto de outros. Ela foge sim, mas para se encontrar e retornar deste seu exílio pessoal uma mulher mais forte.

 

Observações:

1 – Desculpem o sumiço. Foi necessário.

2 – Desafio do Livrada: este livro encaixa-se na categoria 5: um livro que não foi indicado por ninguém

 

_____

A Mulher Foge

David Grossman

Companhia das Letras

Tradução: George Schlesinger

Desafio literário 2014

O blog Livrada, do meu ilustríssimo namorado, propôs o seguinte desafio literário para 2014.

1- Um clássico da literatura brasileira

2- Um clássico esquecido da literatura mundial

3- Um livro do seu autor favorito

4- Um livro de contos

5- Um livro que não foi te indicado por ninguém: “A Mulher Foge”, David Grossman

6- Um livro com mais de 500 páginas

7- Um livro de poesia: “Sentimental”, Eucanaã Ferraz

8- Um livro escrito por alguém com menos de 40 anos

9- Um livro escrito originalmente em um alfabeto diferente do seu: “O Retrato”, Nicolai Gogol

10- Uma graphic novel: “Azul é a cor mais quente”, Julie Maroh

11- Um livro publicado pela primeira vez neste ano

12- Um livro de não-ficção

13- Um volume de alguma trilogia ou série: “1Q84″, livro 3, Haruki Murakami

14- Um livro que algum amigo te enche o saco pra ler

15- Um livro escrito por uma autora : “A Elegância do Ouriço”, Muriel Barbery

Lá ele explica o que cada categoria significa/pode significar.

Eu aqui vou participar! Na verdade, a gente sempre faz esse tipo de coisa, mesmo quando não publicamos. Somos um casal amante de livros!

A ideia, além de compartilhar a brincadeira, é descobrir novos autores, novos livros.

Você até pode mencionar o mesmo livro em categorias diferentes, se quiser. Eu, no entanto, farei um livro diferente para cada uma delas. Em negrito, como podem perceber, são os que já li neste ano. Atualizarei a lista neste post e divulgarei as novidades lá na fanpage do blog no Facebook.

Se quiser, participem também.