Há algumas semanas, escrevi uma resenha de “Garoto Zigue-Zague”, de David Grossman, para o Jornal Boca do Inferno, dos estudantes de Letras da UFPR. O resultado pode ser conferido abaixo.

jornal boca do inferno

resenha garoto zigue zague david grossman

Não são poucos os livros que buscam inspiração em Alice no país das maravilhas e que narram sagas incríveis, repletas de aventura e fantasia. É o caso de Garoto Zigue-Zague, escrito em 1994 pelo israelense David Grossman e lançado no Brasil neste ano pela Companhia das Letras. O livro mescla elementos extraordinários a situações bastante reais para lembrar o leitor da aventura que é crescer e tornar-se adulto.

Tal qual Alice, o garoto Nono é conduzido a um mundo bem diferente do seu, no qual se depara com uma série de pessoas e situações fantásticas. A poucos dias de seu bar mitzvah, Nono embarca em um trem de Jerusalém a Haifa com o objetivo receber conselhos de um tio não muito querido. A viagem é uma exigência do pai do garoto, Iacov, e de sua companheira Gabi – que cuida do garoto desde que a mãe dele, Zohara, morreu. A princípio, o passeio parece um presente de grego de Iacov, detetive e maior herói de Nono. Porém, Nono nunca chegará a seu destino previsto. Ainda no trem, ele conhecerá Felix Glick, um sujeito que, assim como o Coelho Branco de Alice, atrairá o garoto para viver uma grande aventura.

Garoto Zigue-Zague é um romance de formação. Os dois dias de aventuras narradas no livro não apenas marcarão a passagem de Nono da infância para a vida adulta, como moldarão sua personalidade. O que faz o menino aceitar o convite suspeito de Felix e desviar sua trajetória é muito menos a promessa de chegar ao seu verdadeiro presente de bar mitzvah e muito mais a possibilidade de encontrar a resposta para a pergunta que lhe é lançada: “quem sou eu?”. Até então, Nono acreditava ser um garoto com nada de especial, que sofre com problemas de comportamento na escola e que gosta de chocolate e do mar. Porém, a experiência ao lado de Felix o levará a investigar seu próprio passado e descobrir segredos sobre sua família que mudarão toda a sua vida.

Não, Garoto Zigue-Zague não é infanto-juvenil. Tampouco infantil…

Tudo indica que o leitor está diante de um livro infanto-juvenil, porém esta seria uma primeira impressão errônea. O narrador de Garato Zigue-Zague é o próprio Nono, já adulto, que relembra a aventura vivida dias antes de seu bar mitzvah. Contudo, o que interessa não é exatamente o que aconteceu com o menino, mas sim as questões reveladas ao longo desses acontecimentos. O leitor até pode encarar a obra como um livro de aventura, mas Grossman vai além. O que ele explora é a complexidade das relações humanas. Conforme a história se desenrola, Nono é “empurrado” ao mundo adulto e começa a entender e viver algumas dessas questões, como o difícil relacionamento entre Iacov e Gabi (ele nunca quis assumir o relacionamento com a companheira, que ameaçava, assim, abandoná-lo), as escolhas de Felix que o levaram a viver como um fugitivo da polícia e longe de sua amante, a atriz Lola Ciperola.

O livro atinge seu ponto alto quando Nono descobre a história de Zohara – até então, ela era para ele apenas a mulher que o trouxe ao mundo e morreu em seguida. Grossman traz à cena a figura de alguém muito à frente de seu tempo, que jamais se encaixaria na recém-nascida Israel e que jamais assumiria o lugar designado às mulheres de sua época: esposa e mãe de família. Ou seja, Zohara representa todo um grupo de pessoas “desajustadas”, com o qual o próprio Nono se identifica, e ela faz o que todo desajustado tentar fazer: buscar seu lugar no mundo.

A temática da passagem da infância para a vida adulta não é novidade para Grossman. O autor já retratou o tema em outras duas obras, Duelo e Ver: amor, ambas publicadas no Brasil. Em Garoto Zigue-Zague, Grossman coloca um menino de quase treze anos diante de importantes questões e decisões. Em sua aventura, Nono entenderá que os limites entre o certo e o errado são muito mais frágeis e muito mais complexos na vida adulta. E fica claro o quão confuso o menino se sentia diante dessa nova perspectiva de ver e compreender o mundo e o quanto a experiência foi enriquecedora para sua vida.

Vale destacar a estrutura narrativa de Garoto Zigue-Zague. Escrita de modo não-linear, aos poucos a obra revela pistas e fatos importantes para a compreensão da complexidade de cada personagem. Grossman esforça-se para atrair o leitor ao universo criado no livro (o que ele faz com maestria no romance A mulher foge – um livro que vale muito, muito a pena). O leitor mais atento ou com “faro de detetive” consegue desatar os nós e compreender a lógica da trama. Mas nada que compromete o livro, pois chega-se a um ponto em que o mais interessante não é saber o que vai acontecer, mas sim como.

O resultado é um livro cativante.  É difícil não se identificar, em alguma medida, com Nono, pois, Grossman evoca em cada leitor o garoto zigue-zague– aquele que não se enquadra em categoria alguma, que deseja ser livre e que aprende que crescer pode ser dolorido, mas é, de fato, libertador.

Amigos e leitores,

Desculpem o desaparecimento. São muitos os compromissos, o que está atrapalhando – e muito – o meu ritmo de leitura e os livros que leio.

Ainda assim, gostaria de compartilhar com vocês que estou com muita vontade de estudar a literatura argelina. Isso porque, com exceção de alguns nomes que vocês também devem conhecer, pouco sei sobre a Argélia, sua história e, sobretudo, sobre sua produção literária. O desejo, pasmem, surgiu durante a Copa do Mundo. E algum dia, quando eu tiver um tempo, lerei os livros que comprei. São esses dois, de duas autoras contemporâneas. Não sei absolutamente nada sobre elas, encomendei os livros às escuras.

literatura argelina

O jornal O RelevO me mostrou esse belo poema da poetisa Samira Negrouche. Se você não achar bonito, você não tem coração.

il se peut

E, para finalizar, “Denia”, do Manu Chao.

o_arco_e_a_lira_octavio paz_livrosO que vem a seguir não é uma resenha. É um apanhado de anotações que realizei ao longo da minha leitura de “O arco e a lira”, de Octavio Paz.

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É bastante difícil ler “O arco e a lira” e não pensar que se está diante do maior tratado sobre a poesia e a atividade poética. Ou, pelo menos, diante de uma obra grandiosa. A edição da Cosac Naify, publicada no Brasil em 2012, começa com uma carta de Julio Cortázar a Octavio Paz na qual o escritor argentino afirma que seu entusiasmo e sua alegria diante da obra “não são atitude de um novato, e sim, de reconhecimento – por fim – de um trabalho profundo e completo sobre algo que é de longe um dos fogos centrais, se não propriamente o fogo central do homem”. Ao ler isso, você sabe (eu soube) que irá ler algo especial.

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“O arco e a lira” está dividido em três partes: O poema; A revelação poética; Poesia e história. Nelas, Paz pretende encontrar as respostas para as seguintes perguntas:

  1. Há um dizer poético?
  2. O que dizem os poemas?
  3. E como se comunica esse dizer?

Ao longo da obra, o poeta e crítico reflete sobre o significado do poema, sua estrutura e sua importância no mundo ao longo de toda a história.

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O poema

Paz inicia sua reflexão a partir da linguagem (o livro foi lançado em 1956, época do auge do estruturalismo francês). Para ele, o homem é homem graças à linguagem. Cada palavra ou cada conjunto de palavras é uma metáfora, isto é, é passível de mais de um significado. E é a união entre a palavra e a coisa que origina a reconciliação do homem consigo mesmo e com o mundo. Aqui, começamos a entender que o poema é um dos poucos recursos do homem para ir adiante de si mesmo, ao encontro do que ele, de fato, é. O autor aprofunda essa ideia: ele afirma que o poema nos revela o que somos e nos convida a ser o que somos. Com ele, Aquiles e Odisseu são algo mais que duas figuras heroicas: são o destino grego criando a si mesmo.

Então, Paz lança uma pergunta importante: “que sentido têm, se é que têm algum sentido, as palavras e frases do poema?”.

A partir desta pergunta, Paz começa sua reflexão sobre o ritmo dentro da poesia. E quando ele fala em ritmo, vai muito, mas muito além da métrica. O crítico afirma que ninguém pode escapar do poder mágico das palavras. Adiante, ele explica tal magia: todo fenômeno verbal traz em si um ritmo, algo como um imã responsável por mover todo idioma. Toda criação poética convoca, assim, o ritmo como um agente de sedutor. E não se separa ritmo e palavra poética do mesmo modo que não há como dividir ritmo musical e a dança – não se pode afirmar que o ritmo musical é a representação sonora da dança; tampouco que a dança seja a tradução corpórea do ritmo. Isto é, um existe com o outro, sempre.

E é aqui, olha que bonito, que Paz anuncia uma de suas “descobertas” acerca da poesia: o ritmo não é medida. É visão de mundo. Tudo o que chamamos de cultura, diz ele, tem suas raízes no ritmo; é inseparável de nossa condição. Cada sociedade possui um ritmo. Cada ritmo é uma atitude, um sentido, uma imagem de mundo. E esta imagem, por sua vez, é a ponte que o desejo constrói entre o homem e a realidade.

Para o crítico, a linguagem nasce do ritmo. E é aqui que entendemos uma diferença crucial entre prosa e poema. O ritmo se dá espontaneamente em toda forma verbal, porém, apenas no poema ele se manifesta plenamente. Sem ritmo, não há poema e só com ritmo não há prosa. Então, compreendemos por que a prosa (com todos os seus esforços para domar a fala) é um gênero tardio da literatura, enquanto a poesia pertence a todas as épocas – é uma expressão inerente à sociedade.

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Paz inicia no capítulo “Imagem” uma ideia que será essencial para a compreensão de boa parte do restante de “O arco e a lira”. Ele começa por contrapor o pensamento ocidental, que afirma que você é aquilo (em oposição a isto), e o oriental, que diz que você é aquilo e isto. O autor abraça o pensamento do oriente. A seguir, um conceito importante para o resto do livro:

“Pensar é respirar porque pensamento e vida não são universos separados, mas vasos comunicantes: isto é aquilo. A identidade última do homem e o mundo, a consciência e o ser, o ser e a existência, é a crença mais antiga do homem e raiz da ciência e da religião, da magia e da poesia”.

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Uma das questões abordadas pela filosofia é a definição de verdade. Para Paz, a verdade é uma experiência pessoal. O autor nos leva a pensar em um exemplo banal – uma cadeira mencionada em um poema. O poeta não descreve a cadeira; ele a coloca na nossa frente. Ela nos é dada com todas as suas qualidades e o leitor suscita em si o objeto que ele um dia percebeu. Ele recria a experiência da realidade, nos leva ao nosso cotidiano mais banal, mas também à realidade mais obscura. A cadeira pode, então, ser muitas coisas.

Logo, o poeta não quer dizer isto ou aquilo. Ele apenas diz.

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A revelação poética

Aquela ideia de o homem ser aquilo e isto fica mais clara nesta segunda parte de “O arco e a lira”. E será a partir dela que Paz explicará a revelação/atividade poética. Vamos por parte.

Para Paz, o homem sempre teve curiosidade pelo mundo do divino, que nos conduz a um mundo à parte, o mundo do sagrado. O crítico defende que entrar neste lugar à parte é possível. É possível pela habilidade do homem, a qual ele chama de salto-mortal.

“E talvez nossos atos mais significativos e profundos não passem de repetição desse morrer do feto que renasce como criança. Em sumo, o ‘salto-mortal’, a experiência da ‘outra margem’ implica uma mudança de natureza: é um morrer e um nascer. Mas a ‘outra margem’ está em nós mesmos. Sem nos mover, quietos, somos arrastados, impulsionados por um grande vento que nos expulsa para fora de nós. Ele nos joga para fora e, ao mesmo tempo, nos empurra para dentro de nós. A metáfora do sopro aparece repetidas vezes nos grandes textos religiosos de todas as culturas: o homem é desarraigado como uma árvore e arremessado para lá, para a outra margem, ao encontro de si. E aqui se apresenta outra característica extraordinária: a vontade intervém pouco ou então participa de forma paradoxal. Se foi escolhido pelo grande vento, é inútil que o homem tente resistir”.

Este outro que o homem encontra ao realizar o salto-mortal para a outra margem é ele mesmo. Causa a estranheza diante de si mesmo, da própria realidade, mas também diante de algo que a questiona: a identidade do próprio ser. É o fenômeno da outridade. Diante do outro, sempre há, primeiramente, a repulsa; depois a fascinação e,por último, a vertigem.

E a conclusão a que se chega depois do salto-mortal: este Outro também é eu.  É o nosso duplo,que tentamos capturar e sempre nos escapa. Este é o sentido da verdadeira solidão. E nada pode trazer o Outro de volta a não ser o salto-mortal.

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Há uma semelhança muito grande entre o amor e essa experiência do sagrado – essa busca pelo Outro. Os poetas foram os primeiros a perceber tal similaridade. Seja na experiência amorosa, seja na experiência religiosa, o homem se imagina. Ao imaginar-se, ele se revela.

E todo amor é uma revelação, segundo Paz, um tremor que abala os alicerces do eu e nos leva a proferir palavras que não são muito diferentes das que o místico emprega. Na criação poética, acontece algo parecido. Ausência e presença, vazio e plenitude são estados poéticos tanto quanto religiosos ou amorosos. Logo, a experiência poética também é um salto-mortal; é uma mudança de natureza que também é a volta à nossa natureza original.

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Paz lança mais uma questão importante: Que vontade leva o poeta a escrever? A resposta mais comum talvez seja a inspiração. Porém, nunca ninguém conseguiu explicar o que ela é de fato. Os iluministas encontraram na razão explicação para tudo, exceto para a inspiração; por isso, decidiram ignorá-la ou afirmar que ela não existe. Já para Freud, o poético é a revelação do inconsciente.

Para o crítico, a resposta para a inspiração está na outridade, nesta morte e ressurreição permanente. A outridade explicaria o enigma dessa outra voz que o poeta ouve assim:

O poeta está diante do papel. Está só. O mundo se abre e se fecha. O poeta, então, retrai-se; ele quer recordar a linguagem. Mas não há mais “atrás” para ir. Então, ele é lançado para frente e chega ao estado em que se encontra fora de si. É preciso, assim, inventar as palavras. O poeta não as tira de si. Elas também não vêm do exterior. Aliás, não existe interior ou exterior: somos no mundo e o mundo é um dos constituintes do nosso ser. O mesmo vale para as palavras. Então o poeta dá o salto-mortal, renasce e é outro. Ou seja, ele não ouve uma voz estranha – ele mesmo é algo alheio.

Assim, Paz define a inspiração como a manifestação da outridade. É algo/alguém que nos chama para ser nós mesmos. E esse alguém é o nosso próprio ser.

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Poesia e história

Nesta terceira parte, Paz pretende explicar como o ato poético se insere no mundo. Para ele,todo poema tem uma maneira peculiar de ser histórico. Percebê-lo é ver a realidade histórica e a sociedade no qual um poema está inserido. Aí o crítico analisa a atividade poética e a literatura nas suas mais diversas fases: épica, lírica, drama, prosa, além da poesia contemporânea.

Infelizmente, não pude fazer muitas anotações sobre esta última parte – que não deixa de ser interessantíssima.

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Essa edição linda da Cosac Naify ainda traz outros ensaios, todos bastante interessantes. Gostei muito do “A nova analogia: poesia e tecnologia”, no qual Paz discute qual o papel da técnica na atividade poética.

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O arco e a lira

Octavio Paz

Cosac Naify

Tradução: Ari Roitman e Paulina Wacth

o-mestre-e-margarida-mikhail-bulgakovArdiloso e engenhoso parecem-me dois adjetivos que bem definem a figura que convencionamos chamar de diabo. E é assim que o próprio é retratado em “O mestre e Margarida”, cultuado clássico do russo Mikhail Bulgákov. Publicado em 1966, o romance tornou-se um dos mais importantes da literatura do século XX por diversos motivos: sua estrutura narrativa, seu caráter político, seus personagens extremamente bem construídos. Inspirou até os Rolling Stones.

“O mestre e Margarida” divide-se em duas partes. A primeira concentra-se no diabo. Ele chega a Moscou comunista dos anos 1930 com sua comitiva, composta por um gato que assume hábitos humanos, um negociador, uma feiticeira e uma espécie de guarda-costas. Satã apresenta-se como Woland, um professor especialista em magia negra, e logo sua presença muda o destino dos intelectuais da cidade. Mas é no Teatro de Variedades, uma espécie de freak show, que o diabo revelará sua verdadeira intenção (um tanto moralizadora, a princípio): mostrar toda a mesquinhez do povo russo. Woland conduz seu show, tentando o público para que as pessoas tragam à tona sua verdadeira essência. Acontece de tudo – e uma narrativa fascinante: gente decapitada que consegue reconquistar sua cabeça, chuva de dinheiro (oi, quem quer dinheiro?), burguesia correndo pelada sem o menor pudor. Apenas para citar os exemplos mais marcantes.

Já a segunda parte do livro traz a história do mestre e de Margarida.  O mestre é um escritor que tenta publicar um livro sobre Pôncio Pilatos (e aqui entendemos a espécie de “evangelho segundo Pôncio Pilatos” que encontramos na primeira parte). Diante do insucesso de sua empreitada, o mestre vai parar em um hospício. Margarida, sua amante, tenta salvá-lo de lá e contará com a ajuda do diabo, que mais a fascina do que a assusta.

“O mestre e Margarida” pode ser muitas coisas. Pode ser apenas um livro que recorre ao fantástico e ao humor para contar uma história sobre o diabo. Pode também ser também sobre como o mal age – ou sobre como o deixamos agir. Pode, ainda, soar como uma sátira ao regime político stalinista e como uma sátira religiosa. E, de fato, Bulgákov constrói um único livro que é tudo isso.

Contudo, a obra vai além e reflete sobre o que é ser bom. A bondade que nos diz que é preciso dar a outra face a quem nos bate não traz um destino exatamente positivo. No livro, quem é bom termina seus dias na cruz (como Jesus) ou no hospício (como o mestre e o poeta da primeira parte, que foi dado como louco quando tudo o que queria provar era que Woland era o demônio em pessoa e que este havia matado seu amigo). O diabo não aparece como um ser que luta contra algum deus. Ele está mais preocupado em dialogar com os homens – tanto é que, na obra do mestre, ele se volta mais a Pilatos e a Judas do que a Jesus – e a mostrar que a astúcia, isto é, a sabedoria de viver, vale mais do que uma bondade puramente gratuita.

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Hoje não tem um trecho do livro porque eu quero muito que todos vocês que visitam o blog leiam o livro inteiro! E, também, porque esqueci de anotar as páginas de referência.

 

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Este livro não se encaixa em nenhuma categoria do Desafio do Livrada. Aliás, se quiserem conferir como anda meu desempenho, confira abaixo:

1- Um clássico da literatura brasileira

2- Um clássico esquecido da literatura mundial

3- Um livro do seu autor favorito: “A possibilidade de uma ilha”, Michel Houellebecq *

4- Um livro de contos

5- Um livro que não foi te indicado por ninguém: “A Mulher Foge”, David Grossman

6- Um livro com mais de 500 páginas: “Ilíada”, Homero

7- Um livro de poesia: “Sentimental”, Eucanaã Ferraz

8- Um livro escrito por alguém com menos de 40 anos

9- Um livro escrito originalmente em um alfabeto diferente do seu: “O Retrato”, Nicolai Gogol

10- Uma graphic novel: “Azul é a cor mais quente”, Julie Maroh

11- Um livro publicado pela primeira vez neste ano: “Garoto Zigue-Zague”, David Grossman**

12- Um livro de não-ficção

13- Um volume de alguma trilogia ou série: “1Q84″, livro 3, Haruki Murakami

14- Um livro que algum amigo te enche o saco pra ler: “Espinhos e Alfinetes”, João Anzanello Carrascoza

15- Um livro escrito por uma autora : “A Elegância do Ouriço”, Muriel Barbery

*Não fiz uma resenha, mas escrevi uma tentativa de ensaio sobre Michel Houellebecq.

**A resenha deste livro será publicada em outro lugar. Depois postarei aqui também.

michel houellebecqNão são muitos os romances do francês Michel Houellebecq: “Extensão do domínio da luta” (1994); “Partículas elementares” (1998); “Plataforma” (2000); “A possibilidade de uma ilha” (2005) e “O mapa e o território” (2010). Em todos eles, Houellebecq trabalha com a mesma temática: a miséria da existência humana. Suas personagens, de modo geral, conseguem enxergar a mediocridade do mundo, a fragilidade das relações humanas e o vazio de suas vidas – as quais, em um contexto capitalista, poderiam ser consideradas de grande êxito.

Onde estaria, então, o prazer de viver? As personagens de Houellebecq o buscam, sobretudo, no sexo.  Os romances do escritor são repletos de erotismo. As cenas de sexo, e são muitas, são bastante explícitas – há, inclusive, quem considere os livros do autor pornográficos. Contudo, enquanto a indústria da pornografia existe para lucrar propiciando, de algum modo, prazer para seu público, a obra literária de Houellebecq está mais interessada em mostrar o sexo como uma espécie de fonte da felicidade, ainda que momentânea, e, principalmente, como uma maneira de buscar, também momentaneamente, alguma verdade e algum significado nas relações humanas.

Tomemos como exemplo “A possibilidade de uma ilha”.  Neste livro, o protagonista é Daniel 1, um humorista de meia-idade que alcança o status de celebridade respeitada no mundo intelectual, além de milhões de euros, com espetáculos politicamente incorretos, com títulos provocantes, como “Chupe minha Faixa de Gaza (meu colono judeu gorducho)”. Daniel é, contudo, um sujeito extremamente solitário, que age como se fosse capaz de compreender o mundo de um modo superior a todos os outros, e nele não enxerga nenhum tipo de redenção. Mesmo sem acreditar na raça humana, o comediante apaixona-se. Primeiramente por Isabelle, editora de uma revista para adolescentes, tão mordaz quanto o protagonista. Depois, por Esther, jovem aspirante à atriz e que vive dividida entre sua carreira e uma vida sem compromissos.

Torna-se interessante notar o quanto a vida sexual de Daniel com ambas as mulheres serve de indicativo para sua própria felicidade. O casamento com Isabelle existe e é feliz (ou, ao menos, pacífico) à medida que o sexo é presente. Quando ela para de sentir prazer e, consequentemente, desejo, ele volta a sentir toda a descrença na humanidade e em qualquer possibilidade de felicidade para si próprio.

Daniel sai, então, de um casamento sem sexo para um caso baseado apenas em sexo. O relacionamento do comediante com Esther é meramente sexual. Eles pouco conversam entre si, quase nada sabem um da vida do outro. Conseguem, porém, ser felizes um ao lado do outro. A felicidade do protagonista é percebida na narrativa de sua vida com Esther. “Dez minutos depois, eu estava dentro dela, e estava bem. O milagre aconteceu de novo, tão forte como no primeiro dia, e eu pensei novamente, pela última vez, que ele duraria para sempre”.

O personagem pode entender a si próprio como este ser que depende de Esther e do prazer que ela pode lhe causar para ser feliz, confundindo o prazer do sexo (e da presença – física – de sua companheira) com a felicidade em si. Entretanto, uma leitura mais criteriosa pode mostrar que o sexo aparenta ser apenas um caminho, talvez aquele em que o protagonista melhor consiga se expressar, para procurar e alcançar seu bem-estar. Vale ressaltar que não estamos diante de um homem interessado apenas em sexo. Afinal, é o mesmo Daniel que afirma: “Nunca me senti perfeitamente confortável em uma relação baseada apenas na atração sexual e indiferente ao outro. Para que eu me sentisse sexualmente feliz, sempre foi necessário, na falta de amor, um mínimo de simpatia, estima, compreensão mútua”.

A prosa de Houellebecq é, todo tempo, isso: o negativismo diante do mundo versus a busca pela felicidade, brutalmente encontrada no sexo. O mais interessante é perceber como ele utiliza o erotismo (não apenas ele) para questionar o próprio destino do homem, dando ao caráter erótico de seus romances uma função muito mais interessante e profunda do que a grande parte dos escritores contemporâneos que o exploram.

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(Escrevi este texto como um rascunho de um outro projeto que não pude levar adiante por pura falta de tempo. Resolvi, no entanto, publicá-lo aqui do jeito que está. Quem sabe um dia eu estudo tudo isso aí mais criteriosamente. Porque merece).

tu não te moves de ti hilda hilstParece difícil atribuir um gênero a “Tu não te moves de ti”, de Hilda Hilst. Composto por três capítulos (ou seriam três novelas independentes?), o livro traz a história de três personagens que, apesar de se cruzarem rapidamente, possuem em comum tamanha dor de existir, de lidar com a vida que se apresenta diante de seus olhos, todos os dias. A narrativa é densa, fragmentada, seguindo o fluxo de consciência de cada um dos narradores.

Em “Tadeu (da razão)”, a personagem homônima é um empresário bem sucedido, porém que não vê mais sentido no mundo dos negócios. Seu desejo é livrar-se da empresa e da esposa, Rute, que compartilha de todos os valores do mundo capitalista, e poder mergulhar em um mundo em que seu único compromisso seria com as artes. Tadeu encontra-se, contudo, sozinho nesse mundo irreal, impossível. Seus anseios e delírios aumentam conforme ele percebe a mesquinhez da mulher e de tudo aquilo que o cerca.

Já em “Matamoros (da fantasia)”, Maria Matamoros vive em uma comunidade distante com a mãe. Desde muito jovem, Matamoros conhece o prazer sexual pelas mãos dos rapazes de sua aldeia. Então, ela conhece Meu, com quem se casa. Pela primeira vez, Maria conhece algum bom sentimento que não o sexual. Porém, o amor cede lugar à desconfiança. A jovem começa a desconfiar que é traída pela própria mãe. Sua vida vai, então, do céu ao inferno, numa mistura de disputa com aquela que lhe gerou a vida e com a dependência de sua existência ao único ser que é capaz de lhe fazer feliz.

Por último, em “Axelrod (da proporção)”, um professor de história volta da casa de seus pais (que viviam na mesma região que Matamoros) e, durante a viagem, começa a pensar (e a desacreditar) em seu crescimento e sobre os ideais e crenças que julgava, até então, necessários para revolucionar o mundo.

Perceba o movimento de Hilda Hilst. No primeiro capítulo, todas as angústias de Tadeu podem ser resolvidas pelo prazer da arte. Ele alega que só será livre a partir do momento em que se livrar de todas as suas algemas (trabalho, compromissos, dinheiro e esposa) e poder escrever, criar, tirar de si toda a arte que lhe é interna. No segundo, nos deparamos com uma personagem que conhece o prazer muito bem, mas que logo percebe que apenas ele não preenche sua existência.  E quando plenitude chega representada na figura de um homem, quase deus, a quem ela chama de Meu, não consegue lidar com o prazer. O êxtase dá lugar  à obscuridade e ao desespero, que culmina em tragédia.

Axelrod, o professor de história do último capítulo, traz consigo toda a falta de fé nos dias vindouros. Ele olha a história (a que aprendemos na escola e a de sua vida) e, em um momento de epifania, percebe que não há motivos para ter esperanças, seja qual for a escolha feita por cada um de nós.

Parece que aí esta a tese de Hilda Hilst em “Tu não te moves de ti”: por mais que tentemos olhar a vida de uma perspectiva mais otimista o final é sempre o mesmo – o da dor, das dúvidas e das incertezas. Assim como a tese do pai de Axelrod que explicou ao filho, quando este ainda era criança:

“Para onde vão os trens, meu pai? Para Mahal, Tamí, Camirí, espaços no mapa, e depois o pai ria: também para lugar algum, meu filho, tu podes ir, e ainda que se mova o trem, tu não te moves de ti”.

 

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Tu não te moves de ti

Hilda Hilst

Editora Globo

 

ilíada homero

Um ou outro comentário sobre a Ilíada, de Homero.
1.
A Ilíada, épica grega de Homero, é o primeiro texto escrito do ocidente. E é um texto grandioso em diversos sentidos. Suas quase 700 páginas, na edição da Penguin Companhia, narram, em verso, os últimos meses da Guerra de Troia, que durou dez anos.

 

2.
O texto de Homero não é, na verdade, sobre a Guerra de Troia, mas sim sobre a ira de Aquiles, o maior herói grego. Aquiles desentende-se com Agamêmnon, líder político dos gregos. Após a briga, Aquiles retira-se da batalha, dando início a um plano arquitetado por Zeus que levará o herói à glória e os aqueus à vitória.

 

3.

Conhecer um pouco de mitologia grega ajuda na leitura da Ilíada. E faz-se necessário entender a concepção de deuses e de heróis para Homero:
3.1. Os deuses homéricos são, em linhas gerais, mais parecidos com os homens do que com os deuses das religiões monoteístas. Eles possuem características antropomórficas. Precisam seguir regras e são sujeitos à ordem cósmica – não há para eles um deus transcendente.
Além disso, os deuses homéricos são imortais e jovens, mas não eternos. Ou seja, estão sujeitos ao tempo, mas não morrem. Possuem, ainda, grande conhecimento sobre o passado e o futuro, porém não são onipresentes, oniscientes e onipotentes.
São dotados também de grande poder de transformação – de si próprios e dos outros. Quando aparecem aos homens, o fazem por meio de vozes, sonhos e pela transfiguração em animais.
3.2. Os heróis de Homero são guerreiros. Logo, integram uma importante aristocracia responsável por defender as cidades e conquistar a elas riquezas. Assim, pode-se facilmente concluir que os heróis são objetos de culto e, por meio dos cantos, imortalizados.
Para serem cantados, os heróis precisam comprovar sua virtude (areté). E eles comprovam suas virtudes por meio de ações. Por isso, a moral heroica determina que o herói participe de guerras para conquistar fama e respeito (timé). Assim, para Homero, a parte mais importante de uma pessoa é a fama (kléos) – ou seja, o que os outros pensam dela. Assim, se um herói figura em uma poesia épica (seja com feitos positivos ou negativos – o importante é o caráter de extraordinariedade), torna-se imortal.

 

4.
Entendendo melhor a concepção de herói, fica mais fácil compreender que o objetivo de um deles é ser cantado, ou seja, é aparecer na Ilíada. E ser cantado não é sinônimo de vaidade, mas, sim, de imortalidade. A partir disso, compreendemos o valor da guerra, necessária, então, para que os heróis possam ser grandes. No Canto II, há uma passagem que mostra como o combate é valoroso – para determinadas pessoas, em certos contextos, multifacetando o mundo homérico:

Com ela se lançava, faiscante, pela hoste dos Aqueus,
incentivando-os a avançar. No peito de cada um lançava
no coração a força inquebrantável para guerrear e combater.
Então lhes pareceu a guerra mais doce do que regressar
nas côncavas naus para a amada terra pátria.

 

5.
Na verdade, não podemos afirmar se a Ilíada e a Odisseia foram, de fato, escritas por um ser chamado Homero. Há estudos que tentam provar por A+B que ambas as obras são compilações de textos menores, transmitidas pela tradição oral e, depois, passadas para texto escrito. Outras correntes apresentam uma série de argumentos que mostram que a Ilíada e a Odisseia são muito geniais para serem criadas por diversas pessoas. Não há como saber quem está certo aqui.

 

6.
De qualquer modo, a narrativa homérica é, de fato, genial. Alguns exemplos (sobre os quais não pretendo me aprofundar muito):
– Ao longo da obra, Homero mostra que não existe um lado correto ou uma pessoa totalmente forte e íntegra. A briga entre Aquiles e Agamêmnon é um exemplo. Ambos estavam errados, ambos não souberam lidar com seu orgulho e insegurança e, por isso, pagam um alto preço.
– Nem mesmo Zeus, o mais poderoso dos deuses, é livre das consequências de suas escolhas. Ao optar por interceder a favor de Aquiles, ele sabe que perderá filhos amados na guerra.
Esses são apenas dois exemplos que mostram como Homero, em sua narrativa, humaniza as experiências. A leitura, de fato, não é fácil, mas isso é proposital. O que se deseja é que leitor reflita sobre o texto e tenha a partir dela uma experiência intelectual.

 

7.
Ainda sobre a narrativa de Homero. Sobre a guerra:
Em momento algum, Homero afirma que a guerra é o que há de mais terrível. Isso fica para o leitor concluir. E o leitor chega a essa conclusão, pois, ao mesmo tempo em que leva o herói à glória, o combate é extremamente destruidor, é sempre terrível. Vale acrescentar que as descrições de Homero para as cenas de batalha são extremamente bonitas. Um exemplo, do Canto IV:

Assim falando, saltou armado do carro para o chão;
e terrivelmente ressoou o bronze sobre o peito do soberano
que avançava: o medo até teria dominado quem era corajoso.

Tal como na praia de muitos ecos as ondas do mar são impelidas
em rápida sucessão pelo sopro de Zéfiro e surge primeiro
a crista no mar alto, mas depois ao rebentar contra a terra firme
emite um enorme bramido e em torno dos promontórios
incha e se levanta, cuspindo no ar a espuma salgada –
assim avançavam em rápida sucessão as falanges dos Dânaos
para a guerra incessante (…)

 

8.
Um comentário assaz pessoal: a Ilíada não é um livro para se ler rapidamente. Entre algumas pausas, demorei quase três meses para finalizar a leitura. De fato, aproveitei muito mais quando entendi que não seria possível ler rapidamente.
A sensação que eu tinha era a de que o livro jamais acabaria. E aí, conversando com uma amiga, ela expôs a seguinte hipótese: e se a intenção for realmente essa, a de dar a impressão de que a Ilíada jamais acabará? Veja, o livro narra os últimos meses da guerra; estão todos fatigados, com o desejo de voltar para casa e, conforme se passam os dias, o regresso parece cada vez mais longe. Até que Aquiles volta para o combate e é a sua ira que mata os troianos. Quando Aquiles decide lutar novamente, a obra ganha um novo ritmo e o leitor sente o desfecho muito mais próximo – e, também, muito mais violento. Bem, se esta for, de fato, uma das intenções do autor, estamos falando sobre um livro muito, muito genial.

***

Desafio do Livrada:

6- Um livro com mais de 500 páginas

 

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Ilíada

Homero

Penguin Companhia

Tradução: Frederico Lourenço

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