Mauvais Genre, Chloé Cruchaudet

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“Mauvais Genre”, quadrinho da francesa Chloé Cruchaudet, é uma história de amor. E uma história de amor real, que ganhou as páginas desta HQ e de um ensaio intitulado “La garçonne et l’assassin”, publicado em 2011, por ser quase incrível. Paul e Louise, o casal de “Mauvais Genre” se apaixona e se casa, mas ele é convocado para lutar na I Guerra. A experiência nas trincheiras é traumatizante para o jovem, que deserta. Ele volta para Paris e encontra a amada. Porém, na condição de desertor, precisa viver às escondidas, o que também é traumatizante, sufocante.

Paul encontra apenas uma solução: travestir-se. É assim que ele dá vida à Suzanne. Sob o disfarce, Paul ganha novamente as ruas de Paris, sempre com Louise ao seu lado. A trama se complica, contudo, na medida em que a personalidade de Paul e a de Suzanne se misturam.

A história de “Mauvais Genre” é bastante sombria e toda a transformação de Paul, que vai além da física, é muito bem retratada por Cruchaudat, tanto no modo como ela a narra quanto nos desenhos em si. Aliás, é a transformação de Paul – Suzanne o ponto alto do quadrinho: da necessidade de Paul a se reintegrar à sociedade à perda de sua identidade original. Mostrar o homem perdido em suas emoções, em seus traumas de guerra e em suas descobertas me parece o grande objetivo da quadrinista, até porque Louise fica um pouco à margem da história.

Vale observar que em nenhum momento, Paul é mostrado como um herói ou como uma vítima por sua coragem/necessidade de travestir-se – muitas de suas escolhas e atitudes são, no mínimo, de gosto duvidoso, sobretudo quando se trata de seu relacionamento com Louise. Não há, também, nenhum tipo de polêmica ou ataque ao personagem. Cruchaudet dedica-se a mostrar os conflitos de um homem que, ao voltar da guerra, não trouxe consigo parte de si próprio. E nisso o olhar da quadrinista é bastante sensível. E, apesar de parecer em segundo plano, o modo como Cruchaudet retrata Louise é bastante interessante. A esposa de Paul é forte e aceita a condição do marido não por submissão, mas por entender o que é ser livre, o que é ter o direito de sair à rua. E, quando chega a um impasse em sua relação, Louise não tem uma atitude passiva, resignada, submissa. Ela é forte e a todo momento expressa suas ideias e seus sentimentos.

Por enquanto, “Mauvais Genre” está disponível aqui no Brasil apenas em francês. Espero que seja, em breve, traduzido para o português, pois a leitura vale a pena.

 

 

Beleza e Tristeza, Yasunari Kawabata

beleza e tristeza yasunari kawabataÉ impossível ler Beleza e Tristeza, último romance de Yasunari Kawabata, e não sentir um certo tipo de incômodo. E era exatamente isso que o autor, prêmio Nobel de Literatura em 1968, desejava neste seu derradeiro livro. Afinal, tudo na obra conduz o leitor para essa sensação – o enredo, as personagens, a simplicidade da narrativa de Kawabata e todas as discussões sobre arte e sobre a vida levantadas na obra.

O enredo

Beleza e Tristeza narra a história de Oki Toshio, um escritor que na noite de Ano Novo viaja a Kyoto para encontrar sua antiga amante, a pintora Otoko Ueno. Eles se conheceram décadas atrás, quando Otoko era adolescente, e viveram um caso extraconjugal do qual ela nunca se recuperou. O encontro, apesar de rápido e superficial, faz reviver em ambos questões do passado jamais resolvidas. Ao ver a agonia de Otoko, sua aprendiz e amante, a jovem Keiko Sakami, tece um plano de vingança: seduzir Oki e seu filho Taichiro e, assim, acabar com a paz da família do escritor.

As personagens

As personagens de Beleza e Tristeza estão ligadas às artes. Oki é um escritor que alcançou sucesso a partir de um romance baseado em sua história com Otoko. Ela, por sua vez, é uma renomada pintora de temas tradicionais. É por meio da arte que ambos lidam com o sofrimento do amor mal resolvido. Durante o rápido encontro na noite de Ano Novo, Oki e Otoko não são capazes de expressar a dor e o sofrimento que carregam em si. São personagens de poucas palavras, que pouco se comunicam pela via do dito. Utilizam, para tal, a arte.

Pouco se revela sobre as duas figuras centrais de Beleza e Tristeza. Oki e Otoko podem ser desvendados em doses sutis, sobretudo, por meio do que se diz sobre a produção artística de ambos. E não se diz muito. São as personagens secundárias, contudo, que trazem alguma ação ao romance de Kawabata. A mais marcante é, sem dúvida, Keiko. Ela é a principal responsável pelos conflitos da obra, seja em seu relacionamento com Otoko, seja na relação com Oki e Taichiro, a qual tem como objetivo vingar o sofrimento de sua mestre. Destaca-se, ainda, o papel de Fumiko, esposa de Oki. Ela traz em si todos os conflitos sociais da trama ao encarnar a esposa traída e humilhada. Ao mesmo tempo em que exige do marido explicações, Fumiko resigna-se a seu papel de mulher ao permanecer fiel a Oki, atuando, inclusive, como revisora de seus livros.

A narrativa de Kawabata

Embora Keiko e Fumiko tragam alguma ação à trama, é a passividade de Oki e Otoko o ponto mais alto de Beleza e Tristeza. Não há como voltar no tempo e o drama do casal permanecerá. A narrativa de Kawabata concentra-se em mostrar a contemplação da realidade, da história que não mudará.

Neste contexto, a descrição de paisagens, lugares, bem como das telas de Otoko, é bastante delicada e traz no leitor justamente uma sensação de melancolia, mas também de beleza. Todo o tempo, o leitor tem a sensação de que está diante de um cenário sempre muito triste, mas sempre muito belo . Chegar ao estado de contemplação do enredo e da narrativa de Kawabata é fácil, afinal, Kawabata é um escritor muito sensorial, assim como quase tudo o que conheço da literatura japonesa.

Beleza e tristeza na arte e na vida

Em Beleza e Tristeza, Kawabata traz uma reflexão sobre o papel das artes. Em tempos em que se procura por conforto em tudo, Kawabata nos lembra que uma das funções da arte é provocar, de algum modo, algum certo tipo de incômodo. Ela deve levar as pessoas a pensar em algo, a sentir algo. Muitas vezes, o incômodo surge por meio de uma estética apresentada fora dos padrões. O feio pode estar presente, mesmo que seja para nos lembrar o que é, de fato, belo.

José Teixeira Coelho Netto apresenta no prefácio da edição brasileira de Beleza e Tristeza a ideia de que a beleza, como se sabe, sempre foi uma questão importante na cultura japonesa, que prega que se deve saber enxergar a beleza exatamente em tudo:

(…) a beleza da natureza (à qual pertence a bela mulher, tanto quanto pertence ela ao mundo da cultura), beleza dos sentimentos, beleza da reflexão, beleza da vida e beleza da morte, beleza de encontrar forças para continuar vivendo e beleza de encontrar forças para o suicídio e no suicídio; beleza da arte e beleza do erotismo e beleza do sexo, a beleza do pescoço longo e alvo da mulher amada e a beleza da navalha que por um instante se cogita de mergulhar naquela carne sedosa por nenhuma outra razão além daquela quase exigida por essa mesma carne ou pelo ato em si…

Talvez esteja nisso, na contemplação do belo em qualquer situação, a principal contribuição deste livro, da obra de Kawabata e da cultura japonesa.

A Festa da Insignificância, Milan Kundera

a festa da insignificância milan kunderaA Festa da Insignificância foi, talvez, um dos lançamentos literários mais aguardados e comentados do ano. Pudera: o autor é ninguém mais, ninguém menos que Milan Kundera e a Companhia das Letras, editora responsável pela publicação da obra no Brasil, fez uma senhora divulgação, além de uma edição linda, de capa dura – coisa fina. O livro que chegou às mãos do leitor, contudo, talvez tenha deixado uma ou outra pergunta no ar: “mas sobre o que é este livro?” / “mas o que é a tal insignificância festejada?”. Afirmo isso por alguns comentários que li e ouvi por aí.

Gosto de pensar que A Festa da Insignificância é mais simples do que aparenta. Os diversos curtos capítulos do romance estão centrados em quatro personagens, os amigos Ramon, Alain, Charles e Calibã, e destacam fatos e observações do dia a dia deles , como o papel do umbigo como nova zona erótica, o stalinismo, as relações amorosas, a conflito com a figura materna. Os eventos narrados são espaçados no tempo e cada capítulo parece desconectado, em alguma media, com os demais. Conectando todos os personagens há uma festa promovida por um quinto amigo, D’Ardelo, na qual todos se reúnem.

A narrativa de A Festa da Insignificância é bastante fragmentada e, num primeiro momento, nada parece fazer muito sentido. Contudo, o interessante do livro é olhar para ele capítulo a capítulo, procurando perceber o valor de cada um deles. Uma leitura mais atenta revela, então, o que há de importante para ser observado a partir das situações e observações banais vividas e realizadas pelos personagens. Um exemplo está já na abertura do romance, quando Alain passeia pelas ruas de Paris, observa  moças com blusas que deixam o umbigo à mostra e questiona os motivos que levaram essa parte do corpo (e não mais os seios, coxas e bundas) a ter importante papel erótico. O capítulo acaba – embora o tema seja retomado – e cabe ao leitor, se assim, quiser, refletir com Alain.

Este exercício realizado capítulo a capítulo conduz à percepção de elementos comuns à obra de Kundera, como a crítica à cultura ocidental, a individualidade, a superficialidade nas relações humanas e, também, nas produções artísticas.

Todos esses elementos servem, assim, para mostrar aquilo que me parece ser a tese de Kundera: estamos vivendo em um mundo de banalidades, de pequenos e sucessivos acontecimentos banais, sem significância, sem importância. E talvez nem nos damos conta disso. Talvez a insignificância se revele apenas quando refletimos (ou somos forçados ou conduzidos a refletir) sobre as pequenas coisas cotidianas. Ela, a insignificância, revela-se assim:

A insignificância, meu amigo, é a essência da existência. Ela está conosco em toda a parte e sempre. Ela está presente mesmo ali onde ninguém quer vê-la: nos horrores, nas lutas sangrentas, nas piores desgraças. Isso exige muita coragem para reconhecê-la em condições tão dramáticas e para chamá-la pelo nome. Mas não se trata apenas de reconhecê-la, é preciso amar a insignificância, é preciso aprender a amá-la. Aqui,neste parque, diante de nós, ela está presente com toda sua evidência, com toda sua beleza. Sim, sua beleza. Como você mesmo disse: a animação perfeita… e completamente inútil, as crianças rindo…  sem saber por quê, não é lindo? Respire, D’Ardelo, meu amigo, respire essa insignificância que nos cerca, ela é a chave da sabedoria, ela é a chave do bom humor.

 

Os melhores livros de 2014

Confesso: fiquei bem aquém nas minhas metas de leitura neste ano. É que a vida deu uma boa mudada. Nova graduação, nova profissão – que concilio com a antiga… Fui lendo conforme me sobrava um tempinho nas madrugadas da vida e, sim, faltou tempo e disposição para manter o blog em dia.

Bem, de qualquer modo, foram 24 livros lidos em 2014, mais um monte de livros e textos teóricos para a faculdade. Ainda assim, fiquei bem feliz. As leituras para a faculdade foram ótimas. E, na literatura, só li livro bom. Ok, dei aquela boa selecionada diante do pouco tempo, mas, ainda assim, só livro bom. Também fiquei feliz por ter lido mais quadrinhos e, principalmente, mais poesia. A grande maioria já está comentada aqui no blog. As demais ainda estão por vir.

E, como faço todo ano, listo aqui os 5 melhores livros que eu li em 2014. São eles:

melhores livros 2014

1 – O Arco e a Lira, Octavio Paz
2 – A Mulher Foge, David Grossman
3 – Ilíada, Homero
4 – Sentimental, Eucanaã Ferraz
5 – O Mestre e Margarida, Mikhail Bulgákov

Mes Hommes, Malika Mokeddem

mes hommes malika mokeddemHá alguns anos, li um livro interessantíssimo. Chama-se Histórias de Mulheres, da Rosa Montero. Nele, a escritora espanhola conta a história de diversas escritoras e artistas que romperam com as regras de seu tempo e tornaram-se célebres por seu talento e, também, por sua ousadia e coragem (apenas para citar alguns nomes: Simone de Beauvoir, Camille Claudel, Frida Kahlo, George Sand).  O nome da escritora argelina Malika Mokeddem poderia estar nesta lista. Não sei se por seu talento literário, já que de tal autora conheço apenas o livro sobre o qual falo hoje. Contudo, ela foi tão corajosa como as mulheres do livro de Rosa Montero. E Mokeddem conta a sua história em Mes Hommes.

Como o título deixa prever, Malika Mokeddem escolhe contar sua história a partir do relacionamento com os homens importantes de sua vida. O primeiro é o próprio pai.  Mokeddem passou a infância e adolescência na recém independente Argélia, numa sociedade em que a mulher não tinha voz nem vez. E ela percebeu isso ainda muito criança, no convívio com a figura paterna, que nunca a apoiou em seus desejos e escolhas porque para ele, e para todos os homens da época, meninas e mulheres simplesmente não tinham escolha. Contrariando a vontade dele e todas as expectativas, a jovem termina seus estudos e vai, também a contragosto, para a França estudar medicina.

Lá, contudo, Mokeddem entende que ser mulher é difícil também em uma sociedade mais liberal como a francesa. E se torna ainda mais complicado quando se é imigrante. A história de como ela se tornou médica, especialista em nefrologia, e, posteriormente, escritora de sucesso, é contada a partir do que ela viveu com diversas figuras masculinas: o irmão, o melhor amigo, o primeiro namorado, o primeiro marido, um affair, etc.

Não é que existam fatos na vida da escritora que a tornam uma super heroína. O que acontece com ela – relacionamentos mal fadados, súbitas mudanças profissionais, planos que não dão certo – pode suceder com qualquer um de nós. Exceto que muitos desses acontecimentos foram mais difíceis para mulheres imigrantes de algumas décadas atrás (assim como hoje muitas coisas ainda são muito complicadas para nós, mulheres. Não é à toa que o feminismo esteve e está presente e lutando por nossos direitos). A beleza do livro está em como Mokeddem narra suas história e toca em suas próprias feridas para mostrar que há algo de belo, além de importante, claro, nesta luta. Assim ela escreve e resume sua história (tradução minha, então, perdoem qualquer erro):

Eu deixei meu pai para aprender a amar os homens, esse continente ainda hostil justamente por ser desconhecido. E também devo a ele saber me separar dos homens. Mesmo estando apaixonada por eles. Cresci entre os meninos. Fui a única menina da minha classe do quinto ao último ano da escola.

Na residência médica, fui a única mulher no meio dos homens… Eu me fiz com eles e contra eles. Eles incorporam tudo aquilo que tive que vencer para conquistar a liberdade.

Extensão do Domínio da Luta, Michel Houellebecq

extensão do domínio da lutaNem sempre a biografia de um escritor diz respeito à sua obra. Contudo, creio que isso não se aplique ao francês Michel Houellebecq (e, se você não ouviu falar dele, prepare-se para 2015*).  Houellebecq é como seus protagonistas: solitário, pessimista, depressivo e capaz de mostrar o pior do mundo e da humanidade, mesmo quando deseja acreditar em um dos dois ou em ambos.

Extensão do Domínio da Luta é o primeiro romance de Houellebecq e já trazia sinais do que viria nos livros futuros. Nele, Marcel, o protagonista, é um engenheiro de informática que começa a prestar uns serviços para o Ministério da Agricultura da França. Apesar de a profissão dar uma ideia de um homem bem sucedido, o protagonista revela ser um homem infeliz, solitário, misógino, com um único objetivo: provar a impossibilidade das relações humanas – o que, penso eu, Houellebecq tenta provar em todos os seus livros.

E ao longo da narrativa o leitor quase se convence de que o mundo é mesmo um lugar terrível  e que nada vale muito a pena. O protagonista narra seu dia a dia em seu ambiente profissional ao mesmo tempo em que mostra a mediocridade do homem e de sua existência – seja pela incapacidade de conquistar uma bela mulher, pelo convívio com pessoas mesquinhas, pela inutilidade daquilo que fazemos profissionalmente, pela manipulação da mídia e da publicidade. E essa lista continua, acreditem.

O protagonista de Extensão do Domínio da Luta e o próprio Houellebecq têm em comum a capacidade de olhar o mundo quase que de fora dele e apontar o dedo para tudo aquilo que há de podre nele. Doa a quem doer. Neste livro em questão, o autor é até suave em comparação com o que estava por vir. Nos demais, Houellebecq falará abertamente sobre política e economia (francesa e mundial), religião, feminismo, cultura pop e compra briga com muita gente (mas já estou adiantando cenas dos próximos capítulos). E, embora o livro tenha esse quê de pessimista, não há como negar que ele é repleto de bom humor. No entanto, é como aquela piada da qual a gente sabe que não deveria rir, mas ri do mesmo jeito.

Extensão do Domínio da Luta foi publicado nos anos 90, mas é bem atual. Isso porque Houellebecq é como uma “antena do mundo”, captando antes de todos aquilo que vai acontecer – quer exemplo melhor do que Plataforma**? Já naquela época, a sociedade capitalista apontava para o individualismo sem medida que vivemos hoje, marcado por selfies, felicidade forjada nas redes sociais, etc, etc.  E aí você lê Extensão do Domínio da Luta ou qualquer outro romance de Houellebecq e volta para a realidade. Ou se lembra de que há um mundo fora daquela redoma que costumamos construir ao nosso redor. Em tempos de felicidade exacerbada e nem sempre real, é importante pensar na vida a partir de um ponto de vista completamente oposto ao que estamos expostos.

Ou seja, quer gostem, quer não, Houellebecq é um escritor necessário nesse mundo em que vivemos. E é genial no que faz.


 

* Houellebecq lança agora no começo de 2015 seu novo romance, “Soumission”. Segundo essa entrevista aqui ao Correio do Povo, o livro vai botar fogo na França. A história se passará em 2022, quando o Partido dos Muçulmanos vencerá a eleição presidencial francesa. Na mesma entrevista, o autor diz ter a certeza de que será o próximo francês Nobel de Literatura (eu amo o Houellebecq e, a essa altura, já não consigo mais esconder isso).

 

** Em Plataforma,  publicado em 2001, uma das grandes questões são os ataques terroristas provocados por fundamentalistas islâmicos, algo que, como sabemos, atingiu o ápice com o atentado às Torres Gêmeas e está na pauta até hoje. Bem, e antes, lá estava Houellebecq antecipando tudo isso.

 

 

Garoto Zigue-Zague, David Grossman

Há algumas semanas, escrevi uma resenha de “Garoto Zigue-Zague”, de David Grossman, para o Jornal Boca do Inferno, dos estudantes de Letras da UFPR. O resultado pode ser conferido abaixo.

jornal boca do inferno

resenha garoto zigue zague david grossman

Não são poucos os livros que buscam inspiração em Alice no país das maravilhas e que narram sagas incríveis, repletas de aventura e fantasia. É o caso de Garoto Zigue-Zague, escrito em 1994 pelo israelense David Grossman e lançado no Brasil neste ano pela Companhia das Letras. O livro mescla elementos extraordinários a situações bastante reais para lembrar o leitor da aventura que é crescer e tornar-se adulto.

Tal qual Alice, o garoto Nono é conduzido a um mundo bem diferente do seu, no qual se depara com uma série de pessoas e situações fantásticas. A poucos dias de seu bar mitzvah, Nono embarca em um trem de Jerusalém a Haifa com o objetivo receber conselhos de um tio não muito querido. A viagem é uma exigência do pai do garoto, Iacov, e de sua companheira Gabi – que cuida do garoto desde que a mãe dele, Zohara, morreu. A princípio, o passeio parece um presente de grego de Iacov, detetive e maior herói de Nono. Porém, Nono nunca chegará a seu destino previsto. Ainda no trem, ele conhecerá Felix Glick, um sujeito que, assim como o Coelho Branco de Alice, atrairá o garoto para viver uma grande aventura.

Garoto Zigue-Zague é um romance de formação. Os dois dias de aventuras narradas no livro não apenas marcarão a passagem de Nono da infância para a vida adulta, como moldarão sua personalidade. O que faz o menino aceitar o convite suspeito de Felix e desviar sua trajetória é muito menos a promessa de chegar ao seu verdadeiro presente de bar mitzvah e muito mais a possibilidade de encontrar a resposta para a pergunta que lhe é lançada: “quem sou eu?”. Até então, Nono acreditava ser um garoto com nada de especial, que sofre com problemas de comportamento na escola e que gosta de chocolate e do mar. Porém, a experiência ao lado de Felix o levará a investigar seu próprio passado e descobrir segredos sobre sua família que mudarão toda a sua vida.

Não, Garoto Zigue-Zague não é infanto-juvenil. Tampouco infantil…

Tudo indica que o leitor está diante de um livro infanto-juvenil, porém esta seria uma primeira impressão errônea. O narrador de Garato Zigue-Zague é o próprio Nono, já adulto, que relembra a aventura vivida dias antes de seu bar mitzvah. Contudo, o que interessa não é exatamente o que aconteceu com o menino, mas sim as questões reveladas ao longo desses acontecimentos. O leitor até pode encarar a obra como um livro de aventura, mas Grossman vai além. O que ele explora é a complexidade das relações humanas. Conforme a história se desenrola, Nono é “empurrado” ao mundo adulto e começa a entender e viver algumas dessas questões, como o difícil relacionamento entre Iacov e Gabi (ele nunca quis assumir o relacionamento com a companheira, que ameaçava, assim, abandoná-lo), as escolhas de Felix que o levaram a viver como um fugitivo da polícia e longe de sua amante, a atriz Lola Ciperola.

O livro atinge seu ponto alto quando Nono descobre a história de Zohara – até então, ela era para ele apenas a mulher que o trouxe ao mundo e morreu em seguida. Grossman traz à cena a figura de alguém muito à frente de seu tempo, que jamais se encaixaria na recém-nascida Israel e que jamais assumiria o lugar designado às mulheres de sua época: esposa e mãe de família. Ou seja, Zohara representa todo um grupo de pessoas “desajustadas”, com o qual o próprio Nono se identifica, e ela faz o que todo desajustado tentar fazer: buscar seu lugar no mundo.

A temática da passagem da infância para a vida adulta não é novidade para Grossman. O autor já retratou o tema em outras duas obras, Duelo e Ver: amor, ambas publicadas no Brasil. Em Garoto Zigue-Zague, Grossman coloca um menino de quase treze anos diante de importantes questões e decisões. Em sua aventura, Nono entenderá que os limites entre o certo e o errado são muito mais frágeis e muito mais complexos na vida adulta. E fica claro o quão confuso o menino se sentia diante dessa nova perspectiva de ver e compreender o mundo e o quanto a experiência foi enriquecedora para sua vida.

Vale destacar a estrutura narrativa de Garoto Zigue-Zague. Escrita de modo não-linear, aos poucos a obra revela pistas e fatos importantes para a compreensão da complexidade de cada personagem. Grossman esforça-se para atrair o leitor ao universo criado no livro (o que ele faz com maestria no romance A mulher foge – um livro que vale muito, muito a pena). O leitor mais atento ou com “faro de detetive” consegue desatar os nós e compreender a lógica da trama. Mas nada que compromete o livro, pois chega-se a um ponto em que o mais interessante não é saber o que vai acontecer, mas sim como.

O resultado é um livro cativante.  É difícil não se identificar, em alguma medida, com Nono, pois, Grossman evoca em cada leitor o garoto zigue-zague– aquele que não se enquadra em categoria alguma, que deseja ser livre e que aprende que crescer pode ser dolorido, mas é, de fato, libertador.